O Mundo de Kittelsen


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À descoberta do mundo dos contos tradicionais da Noruega.

Na Noruega existem muitos lagos mas num deles existe uma casa especial, a casa onde Kittelsen viveu. Nesta casa discreta na montanha não se imaginaria o mundo que ali se esconde.

Entramos. Ali existe um ar de tranquilidade, a paisagem leva-nos à contemplação, as montanhas espelhadas na água do lago iludem os nossos olhos e por momentos pensamos no mundo à superfície e no mundo abaixo da linha da água, um mundo submerso. Existe uma casa, onde viveu uma família numerosa que era a sua. Nas suas mãos renasceram os contos tradicionais, os contos de fadas da Noruega, contos tradicionais, onde seres encantados transportam os homens para uma outra realidade.

A casa é modesta, não é grande, mas existe espaço. De repente damos conta deste mundo que transparece, o mundo dos contos, o mundo fantástico que aqui se habita. Nas paredes esculturas de folhagens e esquilos, nas portas dragões e sereias, nas ombreiras das portas serpentes, nenúfares esculpidos em madeira ladeiam as janelas, ursos ladeiam os bancos e todas as portas são telas pintadas. Subtilmente os desenhos indiciam outras salas, e a cada porta um mundo que conseguimos a pouco e pouco sentir povoado por crianças, risos e correrias, numa tela viva criada pelas mãos de Kittelsen para si e para a sua família.

É através da travessia de portas que encontramos alguém que vive o conto e que o torna parte da sua vida e do seu quotidiano. Vagueamos e pela casa sente-se a presença dos seus numerosos filhos, “Deus me livre da sorte de ter filhos artistas” e uma mulher de força que o acompanhou ao longo da vida e que ele amou beijando-a eternamente através dos seus desenhos.

E as salas são espaços de descoberta.

Ao lado da sala de jantar uma porta que desce para um pequeno compartimento na presença de uma lareira. Observamos brinquedos esculpidos por si em madeira; a senhora gorda que balança no vagaroso andar, o coelho que balança, o homem e a mulher que baloiçam e riem como se tivessem direito a gozar mais uma vez a infância, o urso que se transforma em homem e a pedra onde se esconde o troll; muito presente o troll, um ser assustador de ar tenebroso que nos leva ao medo. E deste pequeno e apertado compartimento abre-se uma porta onde, ao lado da porta, se encontra a imagem de S. Pedro guardando as chaves de um céu poético, o seu estúdio, uma sala ampla grande revestida a madeira povoada com alguns dos seus desenhos mas que imaginamos repleta de esboços, telas, pinturas, pincéis e a janela… a janela desta belíssima paisagem, a água onde a montanha se espelha, o verde da vegetação que imaginamos no inverno branca como uma folha de papel e um reino poético pronto a emergir dos cantos das paisagens e dos sons da natureza. Uma janela que se abre para um reino, uma janela que mostra um sem fim mundo de uma cultura.

A mulher Pesta que transporta a morte por onde passa, Soria Moria o mundo encantado sob a imagem de um castelo inalcançável que habita a linha do horizonte, os trolls que habitam o lado negativo do homem debaixo dos belos nenúfares floridos, o violino do diabo que quando toca possui as pessoas levando-as as dançar. Mas esta cultura é universal, reflete a imagem dos nossos desejos, das nossas tristezas, da fantasia, do nosso encantamento, da nossa capacidade de nos deixarmos envolver por aquilo que nos rodeia e trazendo à superfície os sentimentos humanos.

Na sua vida transparece o seu trabalho, porque sentimos que o seu trabalho é uma forma de vida.

– Filipa Mesquita

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